Lucina busca o respiro na leveza natural das canções do álbum 'Bicho Pedra Gente'
07/08/2026
(Foto: Reprodução) Lucina canta 13 parcerias com o poeta André Arruda no álbum 'Bicho Pedra Gente', gravado com produção e direção musical de Patrícia Ferraz
Gabriel Marcondes / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Bicho Pedra Gente
Artista: Lucina e arrudA
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ “Ainda que eu não saiba rezar / As nossas mãos conversam”. Esses são os únicos versos ouvidos ao longo dos dois minutos da gravação de “Nossas mãos conversam”, terceira das 13 canções na disposição das faixas do novo álbum de Lucina, “Bicho Pedra Gente”. Por isso mesmo, a letra quase ao estilo haikai do poeta paulistano André Arruda se afina com a estética minimalista do álbum que chega ao mundo digital amanhã, sábado, 8 de agosto.
A afinidade acontece porque a música de Lucina – cantora e compositora mato-grossense projetada na década de 1970 como integrante da dupla Luli & Lucina (1972 – 1998) – também busca o menos é mais, o respiro, como sublinha verso de “Um dia fora do tempo”, canção que abre o álbum gravado no início do ano no estúdio Hi Eight, em Niterói (RJ), com produção e direção musical de Patrícia Ferraz.
A opção por um instrumental também minimalista contribui para a atmosfera harmônica do álbum. Geralmente à voz e ao violão de Lucina, junta-se somente o toque de um instrumentista, que pode ser o violonista e guitarrista Walter Villaça (presente em “Nem era dia santo” e na já mencionada “Nossas mãos conversam”), o polivalente Christiaan Oyens – guitarrista, baixista, baterista e arranjador de “A lua lembra” – ou Lui Coimbra, responsável pelo arranjo e pelo toque do violoncelo que adornam “O que fazemos senão” e a supracitada “Um dia fora do tempo”.
Lucina é parceira de arrudA em canções como 'Há riachos', 'Nossas mãos conversam' e 'Um dia fora do tempo'
Gabriel Marcondes / Divulgação
A capa de “Bicho Pedra Gente” evidencia que o álbum é assinado por Lucina com André Arruda – cujo sintético nome artístico é Arruda, grafado estilisticamente como arrudA – porque as letras de todas as 13 canções inéditas são do poeta. Independentemente do quilate variável de cada canção, observa-se sempre a sincronia entre letra e música em faixas como “Tessituras” e a composição-título “Bicho Pedra Gente”, ambas gravadas com o pianista e tecladista Adriano Souza.
Dentro da arquitetura essencialmente orgânica do álbum, a textura eletrônica da percussão de Sandro Moreno se diferencia no balanço da canção “É onde”, contribuindo para evitar que o tempo de delicadeza das 13 faixas soe excessivamente linear. A parceria de Lucina com arrudA também se afina porque as letras do poeta se ambientam na natureza, habitat natural da música da compositora desde os tempos da dupla com Luhli (1945 – 2018).
“A sombra da lua no sol” – outra canção formatada com arranjo e piano de Adriano Souza – e “Há riachos” já carregam no título elementos dessa natureza. “Há riachos imensos / Todo dia morrendo / Todo dia nascendo / Nas rachaduras do tempo”, observa Lucina no canto da música adornada com os violões e o arranjo de Nando Duarte.
A voz de arrudA se faz ouvir no álbum no poema inserido na faixa final, “Quantos universos”, pontuada pelo clarinete de Joana Queiroz, arranjadora da canção. “O vento sabe meu endereço”, avisa arrudA, que habita o mesmo lugar da música leve de Lucina, cujo álbum “Bicho Pedra Gente” soa como respiro necessário em tempos ansiosos.
Capa do álbum 'Bicho Pedra Gente', de Lucina e arrrudA
Divulgação